Olhos de Menina
(Susan Fletcher)
Naquela tarde, depois da escola, resolvi ignorar os toques de recolher e as leis de minha avó, e permaneci no ônibus até o ponto seguinte.
Isso era algo que nunca havia feito. Encostei o corpo contra uma das cortinas amarelas e fiquei vendo o memorial de guerra e o carro da polícia passarem. Foi uma sensação estranha. Era assim que os verdadeiros exploradores se sentiam?
terça-feira, 2 de junho de 2009
domingo, 26 de abril de 2009
Para terminar (deve ser encantamento)
O Brasil é colônia
(in Revista Época, Edição 330 - Set/04)
ÉPOCA - No romance O Ano em Que Zumbi Tomou o Rio, você faz um retrato aterrador dos morros cariocas, dominados por traficantes de drogas e sob a liderança de um revolucionário angolano. Este personagem afirma que o Brasil ainda não se descolonizou, ao contrário de Angola. Você concorda com ele?
José Eduardo Agualusa - É a minha opinião. O Brasil ainda é um país moldado na escravatura, igual à África. O Brasil tem uma África dentro de si e às vezes não lhe dá atenção. Aqui, como em Angola, por exemplo, existe a figura da babá negra que passa de geração em geração; há o moleque criado como se fosse filho, mas, na verdade, ele trabalha na casa, sem remuneração. Negro e pobre são condições que se confundem no Brasil. Não se criou aqui, como em Angola, uma elite negra. A gente repara nessa desigualdade no dia-a-dia, na relação entre as pessoas, e até mesmo na cultura. Atualmente não dá para citar um grande escritor negro ou mestiço brasileiro. Isso é incrível porque no século XIX havia grandes escritores afro-descendentes, como Machado de Assis e Cruz e Sousa. Pior ainda, não há um único grande autor indígena - algo que acontece em toda a América. Enquanto não enfrentar o problema e não der maior participação aos negros, o Brasil não terá se descolonizado. O Brasil é colônia.
ÉPOCA - Por que você é tão fascinado pelo Brasil?
Agualusa - Busco no Brasil aquilo que ele tem de africano. Não me reconheço no Sul, e sim do Rio para cima e nos sertões. A ligação com o país começou com a minha própria família. Meu avô era carioca, e venho para cá regularmente há 15 anos. Sempre ouvi música e li escritores do Brasil. Caetano, Chico Buarque e Rubem Fonseca me fizeram entender o país com maior profundidade. Conheço mais o Brasil do que muitos brasileiros. O povo é alegre e isso se deve muito à influência africana. A África evitou que os brasileiros se contaminassem pela melancolia portuguesa. O Brasil tem um pé na África e o outro na Europa. É a súmula dos dois mundos. Pena que muitos brasileiros não tenham descoberto esse fato. O pior do Brasil são suas elites. Elas desprezam tudo o que é brasileiro e popular.
ÉPOCA - E o que é genuinamente brasileiro que não se encontra em outros lugares do mundo?
Agualusa - Os brasileiros são um povo nacionalista sem ser xenófobo. As pessoas querem que você vire brasileiro. Às vezes, é como se eu tivesse de esquecer que sou angolano para virar brasileiro. É um país com grande força de integração. O brasileiro gosta de ser brasileiro.
ÉPOCA - E os autores portugueses?
Agualusa - São todos terrivelmente melancólicos. Não há personagem de autor português que não se suicide no final. Os portugueses parecem alguns autores paulistas atuais, soturnos e pessimistas. E há aqueles que não escondem a nostalgia do império e inventam um herói, sempre português, que percorre a África e a América, em geral povoadas por coadjuvantes sem importância. Ultimamente, porém, tenho lido autores jovens - Francisco José Viegas e Pedro Rosa Mendes - que já conseguem olhar para as antigas colônias com olhos menos colonialistas. O maior escritor lusitano da atualidade chama-se António Lobo Antunes. Ele é difícil em sua linguagem cheia de metáforas, é mesmo exagerado e sombrio, mas, no meio de extensas zonas de sombra, encontram-se golpes luminosos. Só que há poucos portugueses com humor depois de Eça de Queirós.
ÉPOCA - Por falar nisso, você não citou o Nobel José Saramago. O que você acha dele?
Agualusa - Ele pode ser um grande escritor. Memorial do Convento é um excelente romance. Mas não gosto dele. Saramago cultiva o niilismo. É um pessimista que não acredita na vida e seus livros são contaminados pelo desencanto. É difícil escrever quando se descrê completamente da vida. Um grande romance deve ser feito com raciocínio, mas também com paixão, as vísceras e o coração. Em seu último livro, Ensaio sobre a Lucidez, Saramago faz a defesa do voto em branco, o que é ridículo, pois ele se candidatou como deputado pelo Partido Comunista. José Saramago é vítima da própria descrença. É um velho.
ÉPOCA - Por que você escreve?
Agualusa - Para elaborar um romance, é necessário algum planejamento, e tomo muitas notas à mão ao viajar. Ainda assim, quando começo a escrever, no laptop ou no computador, não sei qual será o fim do enredo. Ao longo do livro, sou conduzido pelos personagens. Sou surpreendido da mesma maneira que o leitor. Escrevo porque quero saber o final das histórias
(in Revista Época, Edição 330 - Set/04)
ÉPOCA - No romance O Ano em Que Zumbi Tomou o Rio, você faz um retrato aterrador dos morros cariocas, dominados por traficantes de drogas e sob a liderança de um revolucionário angolano. Este personagem afirma que o Brasil ainda não se descolonizou, ao contrário de Angola. Você concorda com ele?
José Eduardo Agualusa - É a minha opinião. O Brasil ainda é um país moldado na escravatura, igual à África. O Brasil tem uma África dentro de si e às vezes não lhe dá atenção. Aqui, como em Angola, por exemplo, existe a figura da babá negra que passa de geração em geração; há o moleque criado como se fosse filho, mas, na verdade, ele trabalha na casa, sem remuneração. Negro e pobre são condições que se confundem no Brasil. Não se criou aqui, como em Angola, uma elite negra. A gente repara nessa desigualdade no dia-a-dia, na relação entre as pessoas, e até mesmo na cultura. Atualmente não dá para citar um grande escritor negro ou mestiço brasileiro. Isso é incrível porque no século XIX havia grandes escritores afro-descendentes, como Machado de Assis e Cruz e Sousa. Pior ainda, não há um único grande autor indígena - algo que acontece em toda a América. Enquanto não enfrentar o problema e não der maior participação aos negros, o Brasil não terá se descolonizado. O Brasil é colônia.
ÉPOCA - Por que você é tão fascinado pelo Brasil?
Agualusa - Busco no Brasil aquilo que ele tem de africano. Não me reconheço no Sul, e sim do Rio para cima e nos sertões. A ligação com o país começou com a minha própria família. Meu avô era carioca, e venho para cá regularmente há 15 anos. Sempre ouvi música e li escritores do Brasil. Caetano, Chico Buarque e Rubem Fonseca me fizeram entender o país com maior profundidade. Conheço mais o Brasil do que muitos brasileiros. O povo é alegre e isso se deve muito à influência africana. A África evitou que os brasileiros se contaminassem pela melancolia portuguesa. O Brasil tem um pé na África e o outro na Europa. É a súmula dos dois mundos. Pena que muitos brasileiros não tenham descoberto esse fato. O pior do Brasil são suas elites. Elas desprezam tudo o que é brasileiro e popular.
ÉPOCA - E o que é genuinamente brasileiro que não se encontra em outros lugares do mundo?
Agualusa - Os brasileiros são um povo nacionalista sem ser xenófobo. As pessoas querem que você vire brasileiro. Às vezes, é como se eu tivesse de esquecer que sou angolano para virar brasileiro. É um país com grande força de integração. O brasileiro gosta de ser brasileiro.
ÉPOCA - E os autores portugueses?
Agualusa - São todos terrivelmente melancólicos. Não há personagem de autor português que não se suicide no final. Os portugueses parecem alguns autores paulistas atuais, soturnos e pessimistas. E há aqueles que não escondem a nostalgia do império e inventam um herói, sempre português, que percorre a África e a América, em geral povoadas por coadjuvantes sem importância. Ultimamente, porém, tenho lido autores jovens - Francisco José Viegas e Pedro Rosa Mendes - que já conseguem olhar para as antigas colônias com olhos menos colonialistas. O maior escritor lusitano da atualidade chama-se António Lobo Antunes. Ele é difícil em sua linguagem cheia de metáforas, é mesmo exagerado e sombrio, mas, no meio de extensas zonas de sombra, encontram-se golpes luminosos. Só que há poucos portugueses com humor depois de Eça de Queirós.
ÉPOCA - Por falar nisso, você não citou o Nobel José Saramago. O que você acha dele?
Agualusa - Ele pode ser um grande escritor. Memorial do Convento é um excelente romance. Mas não gosto dele. Saramago cultiva o niilismo. É um pessimista que não acredita na vida e seus livros são contaminados pelo desencanto. É difícil escrever quando se descrê completamente da vida. Um grande romance deve ser feito com raciocínio, mas também com paixão, as vísceras e o coração. Em seu último livro, Ensaio sobre a Lucidez, Saramago faz a defesa do voto em branco, o que é ridículo, pois ele se candidatou como deputado pelo Partido Comunista. José Saramago é vítima da própria descrença. É um velho.
ÉPOCA - Por que você escreve?
Agualusa - Para elaborar um romance, é necessário algum planejamento, e tomo muitas notas à mão ao viajar. Ainda assim, quando começo a escrever, no laptop ou no computador, não sei qual será o fim do enredo. Ao longo do livro, sou conduzido pelos personagens. Sou surpreendido da mesma maneira que o leitor. Escrevo porque quero saber o final das histórias
Abril de 2009 - Dias de Hospital
As mulheres do meu pai
(José Eduardo *gato sênior* Agualusa)
O silêncio.
Não, os silêncios.
Poderia escrever um breve ensaio sobre o silêncio. Ou antes, um catálogo de silêncios para a boa ilustração de surdos¹:
1. O silêncio que precede as emboscadas;
2. O silêncio no instante do pênalti;
3. O silêncio de uma marcha fúnebre;
4. O silêncio dos girassóis;
5. O silêncio de Deus depois dos massacres;
6. O silêncio de uma baleia agonizando na praia;
7. O silêncio das manhãs de Domingo numa pequena aldeia do interior do Alentejo;
8. O silêncio da picareta que matou Trotsky;
9. O silêncio da noiva antes do sim.
Etc.
Há silêncios plácidos e outros convulsos. Silêncios alegres e outros dramáticos. Há aqueles que cheiram a incenso, e os que transcendem a estrume. Há os que sabem intensamente a goiabas maduras; os que se guardam no bolso interior do casaco, juntamente à fotografia do filho morto; os que andam nus pelas ruas; os silêncios arrogantes e os que pedem esmola.
¹ Segundo que quem viva em pleno silêncio não saiba em que consiste o silêncio. Um cego sabe em que consiste a escuridão?
(José Eduardo *gato sênior* Agualusa)
O silêncio.
Não, os silêncios.
Poderia escrever um breve ensaio sobre o silêncio. Ou antes, um catálogo de silêncios para a boa ilustração de surdos¹:
1. O silêncio que precede as emboscadas;
2. O silêncio no instante do pênalti;
3. O silêncio de uma marcha fúnebre;
4. O silêncio dos girassóis;
5. O silêncio de Deus depois dos massacres;
6. O silêncio de uma baleia agonizando na praia;
7. O silêncio das manhãs de Domingo numa pequena aldeia do interior do Alentejo;
8. O silêncio da picareta que matou Trotsky;
9. O silêncio da noiva antes do sim.
Etc.
Há silêncios plácidos e outros convulsos. Silêncios alegres e outros dramáticos. Há aqueles que cheiram a incenso, e os que transcendem a estrume. Há os que sabem intensamente a goiabas maduras; os que se guardam no bolso interior do casaco, juntamente à fotografia do filho morto; os que andam nus pelas ruas; os silêncios arrogantes e os que pedem esmola.
¹ Segundo que quem viva em pleno silêncio não saiba em que consiste o silêncio. Um cego sabe em que consiste a escuridão?
quinta-feira, 2 de abril de 2009
Escrevi em 31/07/2008. Reli em 30/03/2009
Se existe uma coisa que eu não tolero é esse papinho meu-casamento-está-uma-merda-não-amo-mais-minha-mulher de homem casado. Não ama mais? Separa, cacete. Há filhos? Eles vão sofrer? Olha, eu garanto que sofrerão menos com uma separação do que com um casamento disfuncional. Vivi dez anos da minha vida numa casa de mentiras. Eu sei.
Não acredito em amor-Disney: você se apaixona, casa e nunca mais olha para ninguém do sexo oposto. That’s bull. Mas existe um abismo colossal entre sentir-se atraído por uma pessoa (estando comprometida com outra) e deixar-se apaixonar por uma pessoa. Porque, para mim, é isso: Se o relacionamento está bom, se está tudo bem, não há espaço para que uma coisa mais “intensa” por outra pessoa surja. A gente se deixa envolver, apaixonar. Então, se tudo está uma merda, por que não terminar o relacionamento antes que uma paixão(zinha) aconteça, antes que se perca o respeito?
Não acredito em amor-Disney: você se apaixona, casa e nunca mais olha para ninguém do sexo oposto. That’s bull. Mas existe um abismo colossal entre sentir-se atraído por uma pessoa (estando comprometida com outra) e deixar-se apaixonar por uma pessoa. Porque, para mim, é isso: Se o relacionamento está bom, se está tudo bem, não há espaço para que uma coisa mais “intensa” por outra pessoa surja. A gente se deixa envolver, apaixonar. Então, se tudo está uma merda, por que não terminar o relacionamento antes que uma paixão(zinha) aconteça, antes que se perca o respeito?
sexta-feira, 27 de março de 2009
Recentemente
FOTOGRAFANDO
(Ana Cristina Cesar)
Hoje estas delícias do banal me lembram
quando eu te amava à distância -
trope galope de dois cavalos pelo mato
abro o livro do dever muito depressa
sacudo as folhas do alto da cabeça
e cai um aviso, mania de segredamento
"naquele dia..."
Lampejei.
(Ana Cristina Cesar)
Hoje estas delícias do banal me lembram
quando eu te amava à distância -
trope galope de dois cavalos pelo mato
abro o livro do dever muito depressa
sacudo as folhas do alto da cabeça
e cai um aviso, mania de segredamento
"naquele dia..."
Lampejei.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
Always
Voodoo Girl
(Tim Burton)
and she's all sewn apart
and she has many colored pins
sticking out of her heart.
She has many different zombies
who are deeply in her trance.
She even has a zombie
who was originally from France.
a curse she cannot win.
For if someone gets
too close to her,
the pins stick farther in.
(Em português, tradução de Márcio Suzuki)
Garota Vodu
Sua pele é de um claro tecido,
Todo costurado e refeito.
Muitos alfinetes coloridos,
Despontam-lhe à altura do peito.
Olhos que giram como discos,
Ela possui dois belos pares.
Olhos de poderes hipnóticos:
Olhos de apaixonar os rapazes.
Rapazes que coloca em transe,
Como verdadeiros zumbis.
É o caso de um zumbi francês,
Que depois só dizia: "Oui, oui".
Mas ela também tem uma sina
Que jamais pode ser quebrada:
Se alguém dela se aproxima
Seu coração sente as espetadas.
Maysa em 1961. Mas poderia ser Bibi em 2009
- Você é masoquista?
- Às vezes. Considero o masoquismo aturar sem queixas uma porção de pessoas. Detesto gente burra e vivo me encontrando com elas.
(Por sugestão de Bôscoli, a Manchete propôs a Maysa um desafio: queriam que ela fizesse uma auto entrevista, perguntando a si mesma tudo o que nenhum jornalista jamais tivera coragem de lhe perguntar, com o compromisso de que respondesse a tais interrogações sem nenhuma censura. Ela, que não era de fugir da raia, topou na hora. (...) "Maysa enfrenta Maysa", dizia o título, que antecedia uma afiadíssima sequência de perguntas e respostas)
- Às vezes. Considero o masoquismo aturar sem queixas uma porção de pessoas. Detesto gente burra e vivo me encontrando com elas.
(Por sugestão de Bôscoli, a Manchete propôs a Maysa um desafio: queriam que ela fizesse uma auto entrevista, perguntando a si mesma tudo o que nenhum jornalista jamais tivera coragem de lhe perguntar, com o compromisso de que respondesse a tais interrogações sem nenhuma censura. Ela, que não era de fugir da raia, topou na hora. (...) "Maysa enfrenta Maysa", dizia o título, que antecedia uma afiadíssima sequência de perguntas e respostas)
sábado, 14 de fevereiro de 2009
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Ontem. De noite, na cama.
Reza a lenda difundida nos meios musicais brasileiros por Côrte-Real que a gravadora RGE (Rádio Gravações Especializadas) foi fundada especialmente para lançar Maysa como cantora. Segundo o próprio dono da RGE, o ex-radioator e publicitário José Scatena, essa é uma boa história, mas contém uma imprecisão. Até ali, a RGE, que começara como um estúdio de gravações de anúncios comerciais, já havia colocado no mercado meia dúzia de outros discos, todos com repercussão quase nula. O primeiro, de 1954, foi o de mais fragoroso insucesso. Naquele ano, o time de futebol do Corinthians disputaria a final da Taça do IV Centenário de São Paulo e Scatena arquitetou o que julgava ser a maior jogada de marketing esportivo de todos os tempos. Chamou os integrantes do grupo Titulares do Ritmo – sexteto vocal e instrumental, cujos componentes eram todos cegos – e encomendou-lhes a gravação 78 rpm da célebre canção “Campeão dos campeões”, letra e música do radialista Lauro D’Ávila que viria a ser adotada como hino oficial do clube. Apesar da regência de um notório palmeirense – o maestro Silvio Mazzuca –, Scatena achou que a gravação seria um sucesso estrondoso e cogitou mandar prensar 50 mil cópias do bolachão. Amigos do ramo musical aconselharam-no a ir com menos sede ao pote e sugeriram uma tiragem mais realista, de mil exemplares, a média de então para o início de carreira de um disco. O próprio Scatena contaria que Mazzuca, enquanto regia, passou o tempo todo no estúdio a resmungar palavrões entre os dentes contra os corintianos. Mas o pior estava por vir. O Corinthians, que disputava o título precisando de apenas um empate com o arquirrival*, sagrou-se campeão após o magro placar de 1x1. Entretanto, a despeito da já conhecida e ardorosa paixão da nação alvinegra, o disco vendeu menos de quinhentos exemplares.
* Ai, a reforma ortográfica!
* Ai, a reforma ortográfica!
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Abaixo as pessoas forçadas e a felicidade-Dunga!
Quem muito agrada, desagrada
(Clarice Lispector)
Nunca ouvi esse provérbio, acho que inventei agora mesmo. Mas você vai ver se esse provérbio, inventado ou não, não se aplica a pessoas que você conhece: Às que querem ganhar a todo preço. Então tornam-se “encantadoras”. Procuram adivinhar os mínimos desejos dos outros. Procuram elogiar de qualquer modo. Começam também a mostrar que fazem sacrifícios a cada momento. Esse tipo encantador pesa na alma dos outros. Em uma palavra: desagrada.
Se a pessoa consegue ser e ficar à vontade, ela deixa os outros serem e ficaram à vontade.
(Clarice Lispector)
Nunca ouvi esse provérbio, acho que inventei agora mesmo. Mas você vai ver se esse provérbio, inventado ou não, não se aplica a pessoas que você conhece: Às que querem ganhar a todo preço. Então tornam-se “encantadoras”. Procuram adivinhar os mínimos desejos dos outros. Procuram elogiar de qualquer modo. Começam também a mostrar que fazem sacrifícios a cada momento. Esse tipo encantador pesa na alma dos outros. Em uma palavra: desagrada.
Se a pessoa consegue ser e ficar à vontade, ela deixa os outros serem e ficaram à vontade.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Outubro 2007
Tudo que eu queria te dizer
(Martha Medeiros)
Raul,
sei bem do que você vai me chamar. Louca. Não será a primeira vez, mas agora talvez tenha um motivo, basta que leia esta carta até o fim. De louca você me acusará e tem a prova nas mãos.
Tive um sonho esta noite. Eu caminhava entre uma multidão e, na direção contrária, vinha um homem. Ele trazia uma mochila nas costas. Nossos olhos se cruzaram e eu tive certeza de que era ele. Que seria meu. Que era o amor que eu guardava. Tinha um rosto familiar. Era o irmão de uma amiga da adolescência. Eu vi o irmão dessa garota apenas uma vez na vida, aos 15 anos. Não entendo, nunca troquei palavra com esse cara, nunca mais o vi depois dos 15 anos, nem de perto, nem de longe. Não sei se hoje é casado, gay, bispo, em que país vive, e se vive ainda. Lembro apenas do seu nome. João. Eu e João trocamos um olhar penetrante no meu sonho, então ele passou por mim, e eu por ele, cada um no seu caminho. Alguns passos adiante, virei para trás, olhei, ele estava olhando também, mas nenhum de nós parou. Até que percebi que estava com a mochila dele em minhas mãos e minha bolsa havia sumido. Voltei correndo para procurar minha bolsa, e para procurá-lo. O ambiente parecia uma estação rodoviária. Cruzamos outra vez. Ele estava com a mochila dele. E minha bolsa estava comigo. Sonhos são desse jeito.
Dali em diante, não nos desgrudamos mais. Ele me pegou pela mão, me levou para algum lugar. As mãos dele nas minhas. Como se já fôssemos namorados. Antes de qualquer palavra. Então eu disse a ele – e foi a única coisa dita: se isso tudo acabar agora, vai ter valido a minha vida. E o beijei.
Dormindo, senti aquele beijo como se João estivesse inteiro dentro da minha boca. Foi um beijo cheio. Longo. Delicioso. Um beijo enorme, um beijo doce. Quente. Sexy. Meu corpo reagiu, fiquei excitada, nesse instante houve uma fusão entre sonho e realidade, enquanto o beijava eu pensava: não acorde, não acorde. Mas esse breve instante de consciência me despertou. E eu já não era a mesma.
Raul, foi só um sonho. Mas com uma carga de certeza que me perturba e dói. Eu sou aquela mulher do sonho, atrás de um amor, encontrando um amor, e o perdendo para a minha rotina matinal: acordar, tomar banho, levar as crianças ao colégio, trabalhar, almoçar, morrer.
Eu vou atrás dele, Raul. Não vou fazer terapia, não vou me afogar em uísque, não vou descontar minhas frustrações em você, não vou comprar roupa nova, não vou cortar o cabelo, não vou tomar remédio para dormir, não vou esperar as crianças crescerem. Eu vou atrás dele. Desse homem que nunca conheci de fato, mas que existe de outra forma, que existe com outro rosto e outro nome, que existe no meu futuro, se o futuro eu permitir que aconteça. Não quero mais o presente, não quero mais a paralisia, o pra sempre. Alguém espera por mim. Alguém não vê a hora de eu chegar. Eu não vejo essa hora. Daqui, não alcanço esse sonho. Eu me vou. (...)
(Martha Medeiros)
Raul,
sei bem do que você vai me chamar. Louca. Não será a primeira vez, mas agora talvez tenha um motivo, basta que leia esta carta até o fim. De louca você me acusará e tem a prova nas mãos.
Tive um sonho esta noite. Eu caminhava entre uma multidão e, na direção contrária, vinha um homem. Ele trazia uma mochila nas costas. Nossos olhos se cruzaram e eu tive certeza de que era ele. Que seria meu. Que era o amor que eu guardava. Tinha um rosto familiar. Era o irmão de uma amiga da adolescência. Eu vi o irmão dessa garota apenas uma vez na vida, aos 15 anos. Não entendo, nunca troquei palavra com esse cara, nunca mais o vi depois dos 15 anos, nem de perto, nem de longe. Não sei se hoje é casado, gay, bispo, em que país vive, e se vive ainda. Lembro apenas do seu nome. João. Eu e João trocamos um olhar penetrante no meu sonho, então ele passou por mim, e eu por ele, cada um no seu caminho. Alguns passos adiante, virei para trás, olhei, ele estava olhando também, mas nenhum de nós parou. Até que percebi que estava com a mochila dele em minhas mãos e minha bolsa havia sumido. Voltei correndo para procurar minha bolsa, e para procurá-lo. O ambiente parecia uma estação rodoviária. Cruzamos outra vez. Ele estava com a mochila dele. E minha bolsa estava comigo. Sonhos são desse jeito.
Dali em diante, não nos desgrudamos mais. Ele me pegou pela mão, me levou para algum lugar. As mãos dele nas minhas. Como se já fôssemos namorados. Antes de qualquer palavra. Então eu disse a ele – e foi a única coisa dita: se isso tudo acabar agora, vai ter valido a minha vida. E o beijei.
Dormindo, senti aquele beijo como se João estivesse inteiro dentro da minha boca. Foi um beijo cheio. Longo. Delicioso. Um beijo enorme, um beijo doce. Quente. Sexy. Meu corpo reagiu, fiquei excitada, nesse instante houve uma fusão entre sonho e realidade, enquanto o beijava eu pensava: não acorde, não acorde. Mas esse breve instante de consciência me despertou. E eu já não era a mesma.
Raul, foi só um sonho. Mas com uma carga de certeza que me perturba e dói. Eu sou aquela mulher do sonho, atrás de um amor, encontrando um amor, e o perdendo para a minha rotina matinal: acordar, tomar banho, levar as crianças ao colégio, trabalhar, almoçar, morrer.
Eu vou atrás dele, Raul. Não vou fazer terapia, não vou me afogar em uísque, não vou descontar minhas frustrações em você, não vou comprar roupa nova, não vou cortar o cabelo, não vou tomar remédio para dormir, não vou esperar as crianças crescerem. Eu vou atrás dele. Desse homem que nunca conheci de fato, mas que existe de outra forma, que existe com outro rosto e outro nome, que existe no meu futuro, se o futuro eu permitir que aconteça. Não quero mais o presente, não quero mais a paralisia, o pra sempre. Alguém espera por mim. Alguém não vê a hora de eu chegar. Eu não vejo essa hora. Daqui, não alcanço esse sonho. Eu me vou. (...)
domingo, 1 de fevereiro de 2009
(would you carve me in a tree?)
Passeio no bosque
(Cacaso)
o canivete na mão não deixa marcas
no tronco da goiabeira
cicatrizes não se transferem
(Cacaso)
o canivete na mão não deixa marcas
no tronco da goiabeira
cicatrizes não se transferem
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
O dia em que Billie me deu uma lição de moral
All or Nothing At All
All or nothing at all
Half love never appealled to me
If your heart never could yield to me
Then I'd rather have nothing at all
All or nothing at all
If it's love there is no in between
Why begin, then cry for something that might have been
No, I rather have nothing at all
But, please, don't bring your lips so close to my cheek
Don't smile or I'll be lost beyond recall
The kiss in your eyes, the touch of your hand makes me weak
And my heart may grow dizzy and fall
And if I fell under the spell of your call
I would be caught in the undertow
So, you see, I've got to say
No, no
All or nothing at all
All or nothing at all
Half love never appealled to me
If your heart never could yield to me
Then I'd rather have nothing at all
All or nothing at all
If it's love there is no in between
Why begin, then cry for something that might have been
No, I rather have nothing at all
But, please, don't bring your lips so close to my cheek
Don't smile or I'll be lost beyond recall
The kiss in your eyes, the touch of your hand makes me weak
And my heart may grow dizzy and fall
And if I fell under the spell of your call
I would be caught in the undertow
So, you see, I've got to say
No, no
All or nothing at all
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Veríssimo no final de 2008. Veríssimo no começo de 2009. Veríssimo até quando?
Linguagem
(Luis Fernando Veríssimo)
A língua humana tem
entre oito e dez mil corpúsculos
gustativos, e cada corpúsculo tem
de 50 a 75 receptores químicos
de sabor.
Estes receptores têm
uma vida extremamente curta
e são substituídos a,
aproximadamente,
cada dez dias,
meu amor.
O que significa
que de dez em dez dias
nossas línguas têm
entre 400 e 750 mil
novas células
que nunca provaram
um bife acebolado
um arroz com camarão
uma massa alho e óleo
ou um bacalhau na brasa
sem falar em papo de anjo
e licor.
São neófitas em
feijoadas,
virgens de
pão francês.
E de cada dez em dez dias,
querida,
os nossos beijos de língua
são como a primeira vez!
(Luis Fernando Veríssimo)
A língua humana tem
entre oito e dez mil corpúsculos
gustativos, e cada corpúsculo tem
de 50 a 75 receptores químicos
de sabor.
Estes receptores têm
uma vida extremamente curta
e são substituídos a,
aproximadamente,
cada dez dias,
meu amor.
O que significa
que de dez em dez dias
nossas línguas têm
entre 400 e 750 mil
novas células
que nunca provaram
um bife acebolado
um arroz com camarão
uma massa alho e óleo
ou um bacalhau na brasa
sem falar em papo de anjo
e licor.
São neófitas em
feijoadas,
virgens de
pão francês.
E de cada dez em dez dias,
querida,
os nossos beijos de língua
são como a primeira vez!
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
6/11/1993
Bibi - meu saco de irmã
Estou aqui no escritório com a mamãe, escrevendo para você, e ela implicando que dá aflição me ver batendo no teclado, porque eu sou muito lento. Um dia ainda chego lá e digitarei mais rápido que ela. Hoje de manhã quando acordei vi que você não estava na cama e que a mamãe ainda dormia, pensei:
- Será que aquela doida cumpriu antes do tempo o que ela vem prometendo fazer, que foi finalmente morar sozinha? Puxa, finalmente vou ganhar meu baixo, pois terei o quarto só para mim.
Só que você já tinha ido desde ontem e nem vi.
Vê se volta melhorzinha viu? e menos implicante. Está na hora de sermos amigos de verdade.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
Maio 2007
Lady Sings the Blues
(Billie Holliday)
Meu nome, Eleanora, era comprido demais para as pessoas falarem. Além do mais, eu não gostava dele. Especialmente depois que minha avó o encurtou e berrava “Nora!” para mim da varando dos fundos. Meu pai começou a me chamar de Bill, porque eu era um verdadeiro moleque. Eu não me importava, mas queria ser bonitinha também, e ter um nome bonitinho. Então me decidi por Billie e fiz questão que vingasse.
(My own personal favorite)
(Billie Holliday)
Meu nome, Eleanora, era comprido demais para as pessoas falarem. Além do mais, eu não gostava dele. Especialmente depois que minha avó o encurtou e berrava “Nora!” para mim da varando dos fundos. Meu pai começou a me chamar de Bill, porque eu era um verdadeiro moleque. Eu não me importava, mas queria ser bonitinha também, e ter um nome bonitinho. Então me decidi por Billie e fiz questão que vingasse.
(My own personal favorite)
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Caixa de entrada do e-mail pessoal
VC
Gostei do nome,
Gostei do conteúdo,
dos títulos dos posts.
Gostei assim.
Gostando.
Gostei do nome,
Gostei do conteúdo,
dos títulos dos posts.
Gostei assim.
Gostando.
13 de Janeiro de 2009, três e cinco da tarde
The Urban Dictionary
"Textually Frustrated": When texting with someone over IM or SMS that takes too long to reply leaving you waiting and frustrated. "She takes forever; texting with Sara leaves me textually frustrated".
(Porque todo e-mail, scrap e mensagem de texto deveria ser respondido por lei)
"Textually Frustrated": When texting with someone over IM or SMS that takes too long to reply leaving you waiting and frustrated. "She takes forever; texting with Sara leaves me textually frustrated".
(Porque todo e-mail, scrap e mensagem de texto deveria ser respondido por lei)
Agosto 2008
A insustentável leveza do ser
(Milan Kundera)
(...) Não existe meio de verificar qual é a decisão acertada, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que leva a vida a parecer sempre um esboço. No entanto, mesmo esboço não é a palavra certa, pois um esboço é sempre o projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.
Tomas repete para si mesmo o provérbio alemão: einmal ist keinmal, uma vez não conta, uma vez é nunca. Poder viver apenas uma vida é como não viver nunca.
(Milan Kundera)
(...) Não existe meio de verificar qual é a decisão acertada, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que leva a vida a parecer sempre um esboço. No entanto, mesmo esboço não é a palavra certa, pois um esboço é sempre o projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.
Tomas repete para si mesmo o provérbio alemão: einmal ist keinmal, uma vez não conta, uma vez é nunca. Poder viver apenas uma vida é como não viver nunca.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
1998 - ou - Sobre quem sou eu
The More Loving One
(W.H. Auden)
Looking up at the stars, I know quite well
That, for all they care, I can go to hell,
But on earth indifference is the least
We have to dread from man or beast.
How should we like it were stars to burn
With a passion for us we could not return?
If equal affection cannot be,
Let the more loving one be me.
Admirer as I think I am
Of stars that do not give a damn,
I cannot, now I see them, say
I missed one terribly all day.
Were all stars to disappear or die,
I should learn to look at an empty sky
And feel its total dark sublime,
Though this might take me a little time.
(Aqui em leitura feita pelo próprio Auden)
(W.H. Auden)
Looking up at the stars, I know quite well
That, for all they care, I can go to hell,
But on earth indifference is the least
We have to dread from man or beast.
How should we like it were stars to burn
With a passion for us we could not return?
If equal affection cannot be,
Let the more loving one be me.
Admirer as I think I am
Of stars that do not give a damn,
I cannot, now I see them, say
I missed one terribly all day.
Were all stars to disappear or die,
I should learn to look at an empty sky
And feel its total dark sublime,
Though this might take me a little time.
(Aqui em leitura feita pelo próprio Auden)
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