quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Always

Voodoo Girl
(Tim Burton)
Her skin is white cloth

and she's all sewn apart

and she has many colored pins

sticking out of her heart.


She has many different zombies

who are deeply in her trance.

She even has a zombie

who was originally from France.



But she knows she has a curse on her,

a curse she cannot win.

For if someone gets

too close to her,


the pins stick farther in.


(Em português, tradução de Márcio Suzuki)


Garota Vodu


Sua pele é de um claro tecido,

Todo costurado e refeito.

Muitos alfinetes coloridos,

Despontam-lhe à altura do peito.


Olhos que giram como discos,

Ela possui dois belos pares.

Olhos de poderes hipnóticos:

Olhos de apaixonar os rapazes.


Rapazes que coloca em transe,

Como verdadeiros zumbis.

É o caso de um zumbi francês,

Que depois só dizia: "Oui, oui".


Mas ela também tem uma sina

Que jamais pode ser quebrada:

Se alguém dela se aproxima

Seu coração sente as espetadas.



Maysa em 1961. Mas poderia ser Bibi em 2009

- Você é masoquista?
- Às vezes. Considero o masoquismo aturar sem queixas uma porção de pessoas. Detesto gente burra e vivo me encontrando com elas.

(Por sugestão de Bôscoli, a Manchete propôs a Maysa um desafio: queriam que ela fizesse uma auto entrevista, perguntando a si mesma tudo o que nenhum jornalista jamais tivera coragem de lhe perguntar, com o compromisso de que respondesse a tais interrogações sem nenhuma censura. Ela, que não era de fugir da raia, topou na hora. (...) "Maysa enfrenta Maysa", dizia o título, que antecedia uma afiadíssima sequência de perguntas e respostas)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Ontem. De noite, na cama.

Reza a lenda difundida nos meios musicais brasileiros por Côrte-Real que a gravadora RGE (Rádio Gravações Especializadas) foi fundada especialmente para lançar Maysa como cantora. Segundo o próprio dono da RGE, o ex-radioator e publicitário José Scatena, essa é uma boa história, mas contém uma imprecisão. Até ali, a RGE, que começara como um estúdio de gravações de anúncios comerciais, já havia colocado no mercado meia dúzia de outros discos, todos com repercussão quase nula. O primeiro, de 1954, foi o de mais fragoroso insucesso. Naquele ano, o time de futebol do Corinthians disputaria a final da Taça do IV Centenário de São Paulo e Scatena arquitetou o que julgava ser a maior jogada de marketing esportivo de todos os tempos. Chamou os integrantes do grupo Titulares do Ritmo – sexteto vocal e instrumental, cujos componentes eram todos cegos – e encomendou-lhes a gravação 78 rpm da célebre canção “Campeão dos campeões”, letra e música do radialista Lauro D’Ávila que viria a ser adotada como hino oficial do clube. Apesar da regência de um notório palmeirense – o maestro Silvio Mazzuca –, Scatena achou que a gravação seria um sucesso estrondoso e cogitou mandar prensar 50 mil cópias do bolachão. Amigos do ramo musical aconselharam-no a ir com menos sede ao pote e sugeriram uma tiragem mais realista, de mil exemplares, a média de então para o início de carreira de um disco. O próprio Scatena contaria que Mazzuca, enquanto regia, passou o tempo todo no estúdio a resmungar palavrões entre os dentes contra os corintianos. Mas o pior estava por vir. O Corinthians, que disputava o título precisando de apenas um empate com o arquirrival*, sagrou-se campeão após o magro placar de 1x1. Entretanto, a despeito da já conhecida e ardorosa paixão da nação alvinegra, o disco vendeu menos de quinhentos exemplares.

* Ai, a reforma ortográfica!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

I dream of James McAvoy


Abaixo as pessoas forçadas e a felicidade-Dunga!

Quem muito agrada, desagrada
(Clarice Lispector)

Nunca ouvi esse provérbio, acho que inventei agora mesmo. Mas você vai ver se esse provérbio, inventado ou não, não se aplica a pessoas que você conhece: Às que querem ganhar a todo preço. Então tornam-se “encantadoras”. Procuram adivinhar os mínimos desejos dos outros. Procuram elogiar de qualquer modo. Começam também a mostrar que fazem sacrifícios a cada momento. Esse tipo encantador pesa na alma dos outros. Em uma palavra: desagrada.

Se a pessoa consegue ser e ficar à vontade, ela deixa os outros serem e ficaram à vontade.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Outubro 2007

Tudo que eu queria te dizer
(Martha Medeiros)

Raul,
sei bem do que você vai me chamar. Louca. Não será a primeira vez, mas agora talvez tenha um motivo, basta que leia esta carta até o fim. De louca você me acusará e tem a prova nas mãos.

Tive um sonho esta noite. Eu caminhava entre uma multidão e, na direção contrária, vinha um homem. Ele trazia uma mochila nas costas. Nossos olhos se cruzaram e eu tive certeza de que era ele. Que seria meu. Que era o amor que eu guardava. Tinha um rosto familiar. Era o irmão de uma amiga da adolescência. Eu vi o irmão dessa garota apenas uma vez na vida, aos 15 anos. Não entendo, nunca troquei palavra com esse cara, nunca mais o vi depois dos 15 anos, nem de perto, nem de longe. Não sei se hoje é casado, gay, bispo, em que país vive, e se vive ainda. Lembro apenas do seu nome. João. Eu e João trocamos um olhar penetrante no meu sonho, então ele passou por mim, e eu por ele, cada um no seu caminho. Alguns passos adiante, virei para trás, olhei, ele estava olhando também, mas nenhum de nós parou. Até que percebi que estava com a mochila dele em minhas mãos e minha bolsa havia sumido. Voltei correndo para procurar minha bolsa, e para procurá-lo. O ambiente parecia uma estação rodoviária. Cruzamos outra vez. Ele estava com a mochila dele. E minha bolsa estava comigo. Sonhos são desse jeito.

Dali em diante, não nos desgrudamos mais. Ele me pegou pela mão, me levou para algum lugar. As mãos dele nas minhas. Como se já fôssemos namorados. Antes de qualquer palavra. Então eu disse a ele – e foi a única coisa dita: se isso tudo acabar agora, vai ter valido a minha vida. E o beijei.

Dormindo, senti aquele beijo como se João estivesse inteiro dentro da minha boca. Foi um beijo cheio. Longo. Delicioso. Um beijo enorme, um beijo doce. Quente. Sexy. Meu corpo reagiu, fiquei excitada, nesse instante houve uma fusão entre sonho e realidade, enquanto o beijava eu pensava: não acorde, não acorde. Mas esse breve instante de consciência me despertou. E eu já não era a mesma.

Raul, foi só um sonho. Mas com uma carga de certeza que me perturba e dói. Eu sou aquela mulher do sonho, atrás de um amor, encontrando um amor, e o perdendo para a minha rotina matinal: acordar, tomar banho, levar as crianças ao colégio, trabalhar, almoçar, morrer.

Eu vou atrás dele, Raul. Não vou fazer terapia, não vou me afogar em uísque, não vou descontar minhas frustrações em você, não vou comprar roupa nova, não vou cortar o cabelo, não vou tomar remédio para dormir, não vou esperar as crianças crescerem. Eu vou atrás dele. Desse homem que nunca conheci de fato, mas que existe de outra forma, que existe com outro rosto e outro nome, que existe no meu futuro, se o futuro eu permitir que aconteça. Não quero mais o presente, não quero mais a paralisia, o pra sempre. Alguém espera por mim. Alguém não vê a hora de eu chegar. Eu não vejo essa hora. Daqui, não alcanço esse sonho. Eu me vou. (...)

domingo, 1 de fevereiro de 2009

(would you carve me in a tree?)

Passeio no bosque
(Cacaso)

o canivete na mão não deixa marcas
no tronco da goiabeira

cicatrizes não se transferem