sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Ontem. De noite, na cama.

Reza a lenda difundida nos meios musicais brasileiros por Côrte-Real que a gravadora RGE (Rádio Gravações Especializadas) foi fundada especialmente para lançar Maysa como cantora. Segundo o próprio dono da RGE, o ex-radioator e publicitário José Scatena, essa é uma boa história, mas contém uma imprecisão. Até ali, a RGE, que começara como um estúdio de gravações de anúncios comerciais, já havia colocado no mercado meia dúzia de outros discos, todos com repercussão quase nula. O primeiro, de 1954, foi o de mais fragoroso insucesso. Naquele ano, o time de futebol do Corinthians disputaria a final da Taça do IV Centenário de São Paulo e Scatena arquitetou o que julgava ser a maior jogada de marketing esportivo de todos os tempos. Chamou os integrantes do grupo Titulares do Ritmo – sexteto vocal e instrumental, cujos componentes eram todos cegos – e encomendou-lhes a gravação 78 rpm da célebre canção “Campeão dos campeões”, letra e música do radialista Lauro D’Ávila que viria a ser adotada como hino oficial do clube. Apesar da regência de um notório palmeirense – o maestro Silvio Mazzuca –, Scatena achou que a gravação seria um sucesso estrondoso e cogitou mandar prensar 50 mil cópias do bolachão. Amigos do ramo musical aconselharam-no a ir com menos sede ao pote e sugeriram uma tiragem mais realista, de mil exemplares, a média de então para o início de carreira de um disco. O próprio Scatena contaria que Mazzuca, enquanto regia, passou o tempo todo no estúdio a resmungar palavrões entre os dentes contra os corintianos. Mas o pior estava por vir. O Corinthians, que disputava o título precisando de apenas um empate com o arquirrival*, sagrou-se campeão após o magro placar de 1x1. Entretanto, a despeito da já conhecida e ardorosa paixão da nação alvinegra, o disco vendeu menos de quinhentos exemplares.

* Ai, a reforma ortográfica!

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