As mulheres do meu pai
(José Eduardo *gato sênior* Agualusa)
O silêncio.
Não, os silêncios.
Poderia escrever um breve ensaio sobre o silêncio. Ou antes, um catálogo de silêncios para a boa ilustração de surdos¹:
1. O silêncio que precede as emboscadas;
2. O silêncio no instante do pênalti;
3. O silêncio de uma marcha fúnebre;
4. O silêncio dos girassóis;
5. O silêncio de Deus depois dos massacres;
6. O silêncio de uma baleia agonizando na praia;
7. O silêncio das manhãs de Domingo numa pequena aldeia do interior do Alentejo;
8. O silêncio da picareta que matou Trotsky;
9. O silêncio da noiva antes do sim.
Etc.
Há silêncios plácidos e outros convulsos. Silêncios alegres e outros dramáticos. Há aqueles que cheiram a incenso, e os que transcendem a estrume. Há os que sabem intensamente a goiabas maduras; os que se guardam no bolso interior do casaco, juntamente à fotografia do filho morto; os que andam nus pelas ruas; os silêncios arrogantes e os que pedem esmola.
¹ Segundo que quem viva em pleno silêncio não saiba em que consiste o silêncio. Um cego sabe em que consiste a escuridão?
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