O Brasil é colônia
(in Revista Época, Edição 330 - Set/04)
ÉPOCA - No romance O Ano em Que Zumbi Tomou o Rio, você faz um retrato aterrador dos morros cariocas, dominados por traficantes de drogas e sob a liderança de um revolucionário angolano. Este personagem afirma que o Brasil ainda não se descolonizou, ao contrário de Angola. Você concorda com ele?
José Eduardo Agualusa - É a minha opinião. O Brasil ainda é um país moldado na escravatura, igual à África. O Brasil tem uma África dentro de si e às vezes não lhe dá atenção. Aqui, como em Angola, por exemplo, existe a figura da babá negra que passa de geração em geração; há o moleque criado como se fosse filho, mas, na verdade, ele trabalha na casa, sem remuneração. Negro e pobre são condições que se confundem no Brasil. Não se criou aqui, como em Angola, uma elite negra. A gente repara nessa desigualdade no dia-a-dia, na relação entre as pessoas, e até mesmo na cultura. Atualmente não dá para citar um grande escritor negro ou mestiço brasileiro. Isso é incrível porque no século XIX havia grandes escritores afro-descendentes, como Machado de Assis e Cruz e Sousa. Pior ainda, não há um único grande autor indígena - algo que acontece em toda a América. Enquanto não enfrentar o problema e não der maior participação aos negros, o Brasil não terá se descolonizado. O Brasil é colônia.
ÉPOCA - Por que você é tão fascinado pelo Brasil?
Agualusa - Busco no Brasil aquilo que ele tem de africano. Não me reconheço no Sul, e sim do Rio para cima e nos sertões. A ligação com o país começou com a minha própria família. Meu avô era carioca, e venho para cá regularmente há 15 anos. Sempre ouvi música e li escritores do Brasil. Caetano, Chico Buarque e Rubem Fonseca me fizeram entender o país com maior profundidade. Conheço mais o Brasil do que muitos brasileiros. O povo é alegre e isso se deve muito à influência africana. A África evitou que os brasileiros se contaminassem pela melancolia portuguesa. O Brasil tem um pé na África e o outro na Europa. É a súmula dos dois mundos. Pena que muitos brasileiros não tenham descoberto esse fato. O pior do Brasil são suas elites. Elas desprezam tudo o que é brasileiro e popular.
ÉPOCA - E o que é genuinamente brasileiro que não se encontra em outros lugares do mundo?
Agualusa - Os brasileiros são um povo nacionalista sem ser xenófobo. As pessoas querem que você vire brasileiro. Às vezes, é como se eu tivesse de esquecer que sou angolano para virar brasileiro. É um país com grande força de integração. O brasileiro gosta de ser brasileiro.
ÉPOCA - E os autores portugueses?
Agualusa - São todos terrivelmente melancólicos. Não há personagem de autor português que não se suicide no final. Os portugueses parecem alguns autores paulistas atuais, soturnos e pessimistas. E há aqueles que não escondem a nostalgia do império e inventam um herói, sempre português, que percorre a África e a América, em geral povoadas por coadjuvantes sem importância. Ultimamente, porém, tenho lido autores jovens - Francisco José Viegas e Pedro Rosa Mendes - que já conseguem olhar para as antigas colônias com olhos menos colonialistas. O maior escritor lusitano da atualidade chama-se António Lobo Antunes. Ele é difícil em sua linguagem cheia de metáforas, é mesmo exagerado e sombrio, mas, no meio de extensas zonas de sombra, encontram-se golpes luminosos. Só que há poucos portugueses com humor depois de Eça de Queirós.
ÉPOCA - Por falar nisso, você não citou o Nobel José Saramago. O que você acha dele?
Agualusa - Ele pode ser um grande escritor. Memorial do Convento é um excelente romance. Mas não gosto dele. Saramago cultiva o niilismo. É um pessimista que não acredita na vida e seus livros são contaminados pelo desencanto. É difícil escrever quando se descrê completamente da vida. Um grande romance deve ser feito com raciocínio, mas também com paixão, as vísceras e o coração. Em seu último livro, Ensaio sobre a Lucidez, Saramago faz a defesa do voto em branco, o que é ridículo, pois ele se candidatou como deputado pelo Partido Comunista. José Saramago é vítima da própria descrença. É um velho.
ÉPOCA - Por que você escreve?
Agualusa - Para elaborar um romance, é necessário algum planejamento, e tomo muitas notas à mão ao viajar. Ainda assim, quando começo a escrever, no laptop ou no computador, não sei qual será o fim do enredo. Ao longo do livro, sou conduzido pelos personagens. Sou surpreendido da mesma maneira que o leitor. Escrevo porque quero saber o final das histórias
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Um comentário:
Concordo plenamente com o Agualusa; engraçado que não tinha lido a entrevista mas aí tem muito do que eu penso, e vivo repetindo. Gostei de descobrir essa coincidência de ideias.
Beijo
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